terça-feira, 14 de dezembro de 2010

#30 Feliz aniversário, Solange.

A Solange cometeu suicídio na sexta-feira, no dia do próprio aniversário de quarenta e três anos. Dizem que viu o marido entrando na casa da vizinha carregando duas garrafas de vinho, cheio de risos, com ela e uma amiga. O filho pequeno estava dormindo no quarto, nem viu quando ela se trancou dentro da lavanderia pequena, fechou a janela e abriu o registro do gás. Mulher de saúde fraca, quando o filho sentiu o cheiro já era tarde demais. Ela só deixou uma carta em cima da pia:
"Jorge,
Eu não sei por que tu fez isso. Parecia tudo tão bom. Eu não fui uma boa esposa? Nosso sexo não tava bom? Tu destruiu uma família inteira. Não trai o nosso filho do jeito que tu me traiu. Não esquece de alimentar o gato."
O corpo foi velado no dia seguinte. Cerimônia simples, a Solange não gostava de coisa vistosa, dizia o marido.
O Jorge se mudou com o filho, mas enlouqueceu uns dois anos depois. Depressão. Se trancou no hospício. Do filho ninguém mais sabe.
A vizinha se matou na noite do dia do enterro. Morava sozinha, a casa ficou abandonada do mesmo jeito que estava quando ela se enforcou no abacateiro do pátio. Doaram as roupas, venderam alguns móveis, mas a faixa da festa surpresa ainda estava na parede, meio suja. "Feliz Aniversário, Solange". O bolo apodreceu em cima mesa da sala, do lado de duas garrafas de vinho do porto.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

#29 Unwell.


"Somehow I've lost my mind,
but I'm not crazy, I'm just a little unwell."
(Unwell - Matchbox 20)

Eu já nem escrevo mais.
Não escrevo cartas, nem bilhetes, nem lista de compras pro supermercado. 
Não escrevo mais meu nome ou notas de rodapé. Cansei.
Eu poderia escrever num outdoor para o Brasil inteiro ler, eu poderia escrever uma carta num rolo de papel higiênico ou tatuar meu corpo todo e estaria apenas perdendo meu tempo e minha vididinha simplória ia passar ainda mais rápido e mais despercebida do que o habitual.

E isso não é discurso de bandeira branca. Só queria avisar que meu estoque lexical acabou.
O que é o de menos, também. Tudo o que eu tinha para dizer eu disse e, se não disse, era porque não preciso de palavras pra isso. 

Agora eu serei paciente. Sentarei, esperarei e seja o que tiver de ser. 
....
Não. 
Quer saber?
Eu não vou sentar e esperar.
Tu que me esperes. 
Tô indo praí.
E aí sim que seja o que tiver de ser.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

#28 Open your eyes.





Um dia nunca deve passar em branco.





Quando eu quase caí
Quase que me machuquei de novo
Quase esqueci de que não estava sozinha
E não errei tua mão por pouco.

Tu sorriste e eu me distraí
E porque não sorrir também?
Já disse antes que gosto de ti
E sei que o faço por bem.

__

Obrigada pela força =]
Bons amigos merecem reconhecimento.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

#27 Um vazio aqui dentro.

O vazio é só um espaço preenchido com nada que sempre dá a idéia de estar desocupado.
O nada é a ausência, aquilo que deveria estar mas não está.
O que deveria estar mas não está é aquela sensação de calor interno, de aconchego.
O aconchego é como voltar para casa numa noite de tempestade.
A tempestade é a beleza na sua forma mais cruel.
A crueldade, também chamada de "desumanização" ou "falta de Deus" é o que gera dor e tristeza.
A tristeza é um sentimento bom, repletop de ensinamentos, mas que não nos deixa feliz.
A felicidade é o que torna uma coisa mínima e insignificante a coisa mais perfeita do mundo.
O mundo é o que une todas as pessoas.
As pessoas são criaturas que nascem perfeitamente completas e vão perdendo suas partes mais valiosas e recolhendo as partes que os outros deixaram cair pelo caminho.
O caminho é só uma forma figurativa de dizer "existência".
A existência é o que gera a vida.
A vida é uma grande teia emaranhando todos os seres, de uma forma ou de outra.
O ser é aquilo que parou de apenas existir e se rendeu ao sentimento.
O sentimento é aquilo que desperta o pensamento.
O pensamento é aquilo que nos faz perceber a falta.
A falta gera o vazio.

Tem um inverno bem rigoroso aqui dentro.

domingo, 15 de agosto de 2010

# 26 De Luzes

Te perdia, já perdida
No louro suave das mechas tuas
Um doce perfume de flores nuas
E de ti o sangue esvaía

Eras tu, leve como uma pluma
A alçar vôo das mãos minhas
Esmeraldas opacas na súplica
de salvação, ou coisa nenhuma

Um beijo leve, sem adeus
Puramente gratidão
Em uma noite fria e sem horas

"Até breve, tu melhoras"
Relutante, soltei tua mão
E te botei nas de Deus.

_________________

Que a justiça seja feita. Vais melhorar em breve, tu é forte e mostrou isso a quem quis ver.
Beijo na testa.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

#25 Monocromático.



Eu não quero motivos
nem nada racional.
Me resolvo bem se tiver vontade.
E possibilidade para tal
.




O gosto amargo já não me completa
Muito menos a textura da bebida quente.
Aquele cheiro já não é atraente
A cafeína em nada mais me afeta.

Os cigarros, tão fiéis, apagados.
A fumaça já há muito me incomoda,
O cinza da cinza quente me tocou... e nada!
A dor não veio, só ficou a marca.

Perdi a cor dos meus dias
E tenho certeza que deixei contigo
Procura nas memórias, lê as poesias.
Chovia, lembra? Era tarde de domingo.


sexta-feira, 19 de março de 2010

#24 Ashes&Aces


E foi assim que me ensinaram:
As cinzas sempre ficam para
trás.


O problema reside na brisa suave do verão, pois a mesma que brisa que beija o rosto é aquela que desorganiza tudo aquilo que ficou para trás.
Aquelas cinzas, já queimadas e esquecidas, tornam a aparecer no meio do caminho, levadas por uma força invísivel que não se vê, apenas se sente.
Bate então a nostalgia, as memórias, a lembrança de um filtro queimando antes de ser descartado. Aquele café, o cheiro, a textura, tudo o que acompanhava aquilo que já se queimou.
Volta a queimar, então, mas por dentro. A aflição entre os dedos, o aroma parece ressurgir no ar, como um espectro. Um anjo nas formas de fumaça.
As cinzas deveriam ficar sempre para trás, como lembranças que são daquilo que já passou. Aquele cigarro já não há de queimar mais. Melhor abrir uma nova carteira.
E vire sempre o primeiro cigarro da embalagem, e o fume por último. Dizem que, assim, não faltarão cigarros no futuro... e cinzas e baganas pelo caminho já percorrido.
Afinal... que vida seria uma vida sem memórias?

quinta-feira, 4 de março de 2010

#23 Vigésimo terceiro.

Se mais um dia se passou, eu realmente não vi
Sequer percebi alteração no meu relógio
Meu sol não segue um movimento cronológico
Meu céu eclipsado não resplandece em azul anil.

E por que haveria de seguir tal padrão
Se nem ao menos abro os olhos de manhã?
No afã de continuar um devaneio insano.
Seguem fechados, coitados, em vão

E em vão sigo eu, em meus dias sem fim
Dias inglórios, bastardos
Eternos como a noite que habita em mim
Trazendo a agonia dos invernos passados

E a lembrança nítida e ardente
Daquele verão que vivi uma vez
Houve a chuva a banhar-me a tez
E o sol a beijar-me fremente

Seguir sonhando, árdua é a espera
Pois o que resta, agora, é a esperança
De mãos dadas com o tempo, como criança
Beijando os pés da minha última quimera.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

#22 Tempestuoso







Foi quando parou de chover lá fora
e começou o temporal aqui dentro
que eu percebi algo fora do lugar





E foi assim que percebi como são lindos os dias tempestuosos.
É misteriosa a forma com que a chuva vai sendo carregada pelas rajadas de vento cortante. A água no solo ondula como uma pequena maré, a atmosfera carrega todo o movimento. É incerto, é curioso, é duvidoso, é desconhecido, é improvável.
É belo.
Uma harmonia de sons, cores, texturas... a força com que as gotas atingem a pele chegam a machucar, mas revigoram. O vento na roupa molhada dá arrepios, frio, mas nos faz sentir vivos, de fato.
Impossível enxergar o céu. Apenas nuvens, nuvens esbranquiçadas, acinzentadas, negras. Não há como saber se é dia ou noite. Também não há necessidade disso.
A única iluminação é a do imponente raio, precedendo o som vibrante do trovão.
É, além de belo, nobre.
É algo do qual não se esquece, não passa despercebido. Deixa marcas profundas, fissuras, devastação. Belo e perigoso. Majestosa como uma rosa e seus espinhos.
Um guarda-chuva protege de garoas e chuviscos, mas é impossível fugir de uma tormenta.
Só é possível buscar abrigo no sentimento que isso proporciona. Na beleza dos raios, na força das chuvas, nos abalos e tremores.
As tempestades começam, duram seu tempo e vão embora, como há de ser.
Sobra a saudade nos dias de sol, e a esperança de um próximo banho de chuva.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

#21 E foi embora com a chuva.



"Meu sorriso se foi.
Minha canção também.
Eu jurei por Deus não morrer
por amor e continuar a viver."
(Ira! - O Girassol)





Quase uma flor

Desabrochou numa tarde de verão
Uma florzinha pálida e sem graça,
Que nem bordada na mais fina cassa
Haveria de chamar alguma atenção.

É desbotada, murcha e inodora.
Pequena, de caule quebradiço,
Como se a fosse cria de algum feitiço
Falho, repudiada e posta fora.

Está ali, agora, buscando aceitação,
Urrando no silêncio da limitação
De sua existência enfadonha

Não trata-se de algum tipo de anomalia,
E sim da forma física da poesia
Incompreendida, combalida, medonha.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

#20 Anoiteceu.

Hoje reparei que o céu estava estrelado.
Depois das noites nebulosas - ora chuvosas, ora apenas iluminadas por um brilho fosco provido da lua-, vi belas estrelas cobrindo o imenso tapete negro acima de nossas cabeças.
Pequenas, de brilho reduzido e quase insignificantes ante as dimensões do espaço, mas estão ali, disputando heroicamente um ínfimo lugar entre as nuvens que ainda teimam em descolorir as noites.
Trazem em si uma aparência delicada, um brilho sutil e comovente.
As observamos de longe e sabemos que, mesmo cobertas ou uma tempestade, elas ainda estão ali. Quando as nuvens dispersarem, elas estarão ali, brilhando, reluzindo, delicadas e sutis. Estrelas.
Gosto de imaginá-las no teto do meu quarto quando apago a luz pra dormir. As ordeno mentalmente, crio desenhos, brinco com constelações. Construo um céu inteiro todo meu.
Depois, fecho os olhos e continuo desenhando. Crio um mundo, crio flores, animais, plantas, luz, vida. Brinco de deus antes de adormecer e vivo em sonho nesse pequeno mundinho pessoal.
Faço questão de que seja sempre noite, para que eu possa admirar o círculo luminoso ao redor da lua, nomeio as constelações que criei. Nesse mundo não existem distâncias. Nada fica fora do alcance das minhas mãos.
Nesse mundo sempre existe uma estrela especial. Ela é bonita, de um brilho quase cegante, imenso, indescritível. O calor dessa estrela enche meu coração, e eu sinto vontade de não acordar. Eu me abraço nessa estrela e passamos a noite inteira assim, e essa estrela me abraça de volta.
Então, tudo começa a ficar claro. Meu mundo noturno começa a amanhecer, e eu abro os olhos sonolentos.
Acordo e, sem me mexer da posição que estou, ainda sinto os braços da estrela ao meu redor, me dizendo que um sonho só é inalcançável quando não se acredita nele.
Abro a janela e a luz do dia machuca meus olhos ainda desacostumados com a luz.
Depois de um tempo, quanto torno a olhar para o céu, o sol me parece, de alguma forma mais pessoal, familiar.
Sorrio e começo o meu dia, esperando pacientemente o anoitecer.

_____________________

De joelhos

De joelhos eu caí, chorosa e machucada
E jurei jamais me render aos teus encantos,
Pois não passariam de apenas belos cantos
Em meio a uma sinfonia desafinada.

Essa melodia já me é velha conhecida,
Pestilenta sonora que tanto me tirou o sono.
Dias e noites escravizando meu tímpano
E trazendo à tona memórias a tanto esquecidas.

Mas minha jura não me permitiste cumprir
E cá estou eu, de joelhos, novamente
Mas desta vez não prometo ser resistente
Quanto àquilo do qual não há como fugir

E cá estou eu, ajoelhada e já sem ar
Mas agora não estou ferida ou chorosa
Caio aqui, aos teus pés, com uma rosa
Que te entrego como jura de me deixar entregar.

(G. Gil)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

#19 Atípico e incompleto.



A pior parte do dia ainda é deitar na cama, esticar o braço e não te sentir ao meu lado.




Ontem à noite, a noite estava fria.
E o mais frio naquela noite era o lado da cama que não era o meu.
Aquela solidão vampírica que surge quando o sol se põe, suga as forças e nos adormece numa ausência completa de sentidos, num sono sem sonhos.
E até dormir perdeu o sentido.
O melhor sonho ainda é aquele que tenho olhando pela janela do ônibus, sentada num banco da praça, tomando um café na rodoviária. O melhor é aquele sonho que não precisa dos olhos fechados, aquele que não é extraordinariamente insano e divertido. É aquele sonho verossímil, belo e simples, totalmente alcançável.
Nesse sonho eu te vejo, eu te abraço, te sinto. Sorrio com o teu sorriso.
É um devaneio que me pega descuidada.
É uma esperança que guardo, com carinho, no botão de uma rosa que espera o dia de desabrochar.
.


É pequeno, mas é de coração.








terça-feira, 26 de janeiro de 2010

#18 E eu vejo flores em você.

Eu, que não fumo, queria um cigarro.
Eu que não amo você.
(Engenheiros do Hawaii)







Trova curta

Ouviste o trovão rugindo lá fora?
Temei, pois o clarão que o precede
Há de vir a curar a sede
Do sertão onde tu mora.

Vem, te aconchega junto a mim
Que se o vento apaga a luz da vela
Eu, apaixonada pela face tão bela
Zelarei toda noite por ti, serafim.
É a sina que em meu peito trago,
Cicatrizes com teu nome nesse estrago,
É a lágrima que derramo escondida.

Se me prometi uma vida sem dores
Hei de morrer solita e sem amores,
Sem ter vivido sequer um dia de vida.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

#17 Perdoa?

Perdoa cada vez que eu fui grosseira por simplesmente acordar às avessas.
Perdoa se te derrubei café quente, foi sem querer, tive uma crise de riso.
Desculpa pelas crises de riso, também. Eu realmente fico nervosa quando tu estás por perto!
Desculpa por todas as vezes que te fiz esperar pra que eu terminasse um cigarro. Desculpa por simplesmente te fazer esperar!
Perdoa meu jeito desajeitado, minhas piadas sem graça, meu silêncio.
Desculpa se eu sou meio estranha. E desculpa mais ainda se esse meu jeito estranho te deixa com vergonha!
Desculpa por não conseguir te dizer tudo que eu queria, perdoa esse meu medo.
Desculpa por sentir isso que sinto por ti. Sei que não é algo que você gostaria que acontecesse.
Eu sei, isso não deveria doer tanto. Dizem que é bom, mas na verdade não é. Só acho que gosto de ti mais do que gosto de um simples amigo.
Não, deixa pra lá, eu não espero que algum dia isso seja correspondido.
Só queria que passase logo, tá doendo aqui. Tá machucando.
A culpa não é tua. É minha, mesmo.
.
Ah, quer saber? Deixa pra lá.
Conheço um café muito bom, me acompanha?

domingo, 3 de janeiro de 2010

#2010 novas chances para o mais do mesmo.

Eu sinceramente odeio esse negócio de 'ano novo'. Acho um porre, de fato. Eu não gosto de ficar desejando um 'feliz ano novo', eu detesto essas contagens regressivas, não entendo quem pula sete ondinhas, veste branco, faz oferenda e joga fogos de artifício. E tenho meus motivos.
Não vejo sentido em comemorar um novo ano se tudo o que vai acontecer vai seguir a mesma linha de acontecimentos do ano anterior. Eu, por exemplo, vou continuar acordando de mau humor, tomando café forte, indo pra faculdade, fazendo minha música e escrevendo para ninguém ler. O ano mudou de número, mas a vida continua a mesma e, caso aconteça algo novo, interessante, bom ou ruim, não vai ser decorrente da comemoração, da roupa que eu usei, dos quindins que eu dei pro santo ou das ondas que pulei. Se eu ganhar na Mega Sena acumulada vai ser porque eu sou uma grande cretina sortuda. Se eu perder um braço é porque eu não deveria ter saido da cama (ou deveria, se foi em desmoronamento). Pular onda não torna ninguém imortal.
E cá estou eu, em mais um ano, os mesmos velhos hábitos e o coração batendo mais forte pela mesma pessoa da década passada.
Eu comemoraria o ano novo se realmente houvesse renovação.
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Versinho

Quero no céu das minhas noites o ébano dos teus cabelos
E quero que as estrelas brilhem como teu olhar.
Um cometa carmim como teus lábios tão belos
E um sonho contigo para jamais acordar.

;)