sábado, 20 de fevereiro de 2010

#22 Tempestuoso







Foi quando parou de chover lá fora
e começou o temporal aqui dentro
que eu percebi algo fora do lugar





E foi assim que percebi como são lindos os dias tempestuosos.
É misteriosa a forma com que a chuva vai sendo carregada pelas rajadas de vento cortante. A água no solo ondula como uma pequena maré, a atmosfera carrega todo o movimento. É incerto, é curioso, é duvidoso, é desconhecido, é improvável.
É belo.
Uma harmonia de sons, cores, texturas... a força com que as gotas atingem a pele chegam a machucar, mas revigoram. O vento na roupa molhada dá arrepios, frio, mas nos faz sentir vivos, de fato.
Impossível enxergar o céu. Apenas nuvens, nuvens esbranquiçadas, acinzentadas, negras. Não há como saber se é dia ou noite. Também não há necessidade disso.
A única iluminação é a do imponente raio, precedendo o som vibrante do trovão.
É, além de belo, nobre.
É algo do qual não se esquece, não passa despercebido. Deixa marcas profundas, fissuras, devastação. Belo e perigoso. Majestosa como uma rosa e seus espinhos.
Um guarda-chuva protege de garoas e chuviscos, mas é impossível fugir de uma tormenta.
Só é possível buscar abrigo no sentimento que isso proporciona. Na beleza dos raios, na força das chuvas, nos abalos e tremores.
As tempestades começam, duram seu tempo e vão embora, como há de ser.
Sobra a saudade nos dias de sol, e a esperança de um próximo banho de chuva.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

#21 E foi embora com a chuva.



"Meu sorriso se foi.
Minha canção também.
Eu jurei por Deus não morrer
por amor e continuar a viver."
(Ira! - O Girassol)





Quase uma flor

Desabrochou numa tarde de verão
Uma florzinha pálida e sem graça,
Que nem bordada na mais fina cassa
Haveria de chamar alguma atenção.

É desbotada, murcha e inodora.
Pequena, de caule quebradiço,
Como se a fosse cria de algum feitiço
Falho, repudiada e posta fora.

Está ali, agora, buscando aceitação,
Urrando no silêncio da limitação
De sua existência enfadonha

Não trata-se de algum tipo de anomalia,
E sim da forma física da poesia
Incompreendida, combalida, medonha.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

#20 Anoiteceu.

Hoje reparei que o céu estava estrelado.
Depois das noites nebulosas - ora chuvosas, ora apenas iluminadas por um brilho fosco provido da lua-, vi belas estrelas cobrindo o imenso tapete negro acima de nossas cabeças.
Pequenas, de brilho reduzido e quase insignificantes ante as dimensões do espaço, mas estão ali, disputando heroicamente um ínfimo lugar entre as nuvens que ainda teimam em descolorir as noites.
Trazem em si uma aparência delicada, um brilho sutil e comovente.
As observamos de longe e sabemos que, mesmo cobertas ou uma tempestade, elas ainda estão ali. Quando as nuvens dispersarem, elas estarão ali, brilhando, reluzindo, delicadas e sutis. Estrelas.
Gosto de imaginá-las no teto do meu quarto quando apago a luz pra dormir. As ordeno mentalmente, crio desenhos, brinco com constelações. Construo um céu inteiro todo meu.
Depois, fecho os olhos e continuo desenhando. Crio um mundo, crio flores, animais, plantas, luz, vida. Brinco de deus antes de adormecer e vivo em sonho nesse pequeno mundinho pessoal.
Faço questão de que seja sempre noite, para que eu possa admirar o círculo luminoso ao redor da lua, nomeio as constelações que criei. Nesse mundo não existem distâncias. Nada fica fora do alcance das minhas mãos.
Nesse mundo sempre existe uma estrela especial. Ela é bonita, de um brilho quase cegante, imenso, indescritível. O calor dessa estrela enche meu coração, e eu sinto vontade de não acordar. Eu me abraço nessa estrela e passamos a noite inteira assim, e essa estrela me abraça de volta.
Então, tudo começa a ficar claro. Meu mundo noturno começa a amanhecer, e eu abro os olhos sonolentos.
Acordo e, sem me mexer da posição que estou, ainda sinto os braços da estrela ao meu redor, me dizendo que um sonho só é inalcançável quando não se acredita nele.
Abro a janela e a luz do dia machuca meus olhos ainda desacostumados com a luz.
Depois de um tempo, quanto torno a olhar para o céu, o sol me parece, de alguma forma mais pessoal, familiar.
Sorrio e começo o meu dia, esperando pacientemente o anoitecer.

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De joelhos

De joelhos eu caí, chorosa e machucada
E jurei jamais me render aos teus encantos,
Pois não passariam de apenas belos cantos
Em meio a uma sinfonia desafinada.

Essa melodia já me é velha conhecida,
Pestilenta sonora que tanto me tirou o sono.
Dias e noites escravizando meu tímpano
E trazendo à tona memórias a tanto esquecidas.

Mas minha jura não me permitiste cumprir
E cá estou eu, de joelhos, novamente
Mas desta vez não prometo ser resistente
Quanto àquilo do qual não há como fugir

E cá estou eu, ajoelhada e já sem ar
Mas agora não estou ferida ou chorosa
Caio aqui, aos teus pés, com uma rosa
Que te entrego como jura de me deixar entregar.

(G. Gil)