sexta-feira, 19 de março de 2010

#24 Ashes&Aces


E foi assim que me ensinaram:
As cinzas sempre ficam para
trás.


O problema reside na brisa suave do verão, pois a mesma que brisa que beija o rosto é aquela que desorganiza tudo aquilo que ficou para trás.
Aquelas cinzas, já queimadas e esquecidas, tornam a aparecer no meio do caminho, levadas por uma força invísivel que não se vê, apenas se sente.
Bate então a nostalgia, as memórias, a lembrança de um filtro queimando antes de ser descartado. Aquele café, o cheiro, a textura, tudo o que acompanhava aquilo que já se queimou.
Volta a queimar, então, mas por dentro. A aflição entre os dedos, o aroma parece ressurgir no ar, como um espectro. Um anjo nas formas de fumaça.
As cinzas deveriam ficar sempre para trás, como lembranças que são daquilo que já passou. Aquele cigarro já não há de queimar mais. Melhor abrir uma nova carteira.
E vire sempre o primeiro cigarro da embalagem, e o fume por último. Dizem que, assim, não faltarão cigarros no futuro... e cinzas e baganas pelo caminho já percorrido.
Afinal... que vida seria uma vida sem memórias?

quinta-feira, 4 de março de 2010

#23 Vigésimo terceiro.

Se mais um dia se passou, eu realmente não vi
Sequer percebi alteração no meu relógio
Meu sol não segue um movimento cronológico
Meu céu eclipsado não resplandece em azul anil.

E por que haveria de seguir tal padrão
Se nem ao menos abro os olhos de manhã?
No afã de continuar um devaneio insano.
Seguem fechados, coitados, em vão

E em vão sigo eu, em meus dias sem fim
Dias inglórios, bastardos
Eternos como a noite que habita em mim
Trazendo a agonia dos invernos passados

E a lembrança nítida e ardente
Daquele verão que vivi uma vez
Houve a chuva a banhar-me a tez
E o sol a beijar-me fremente

Seguir sonhando, árdua é a espera
Pois o que resta, agora, é a esperança
De mãos dadas com o tempo, como criança
Beijando os pés da minha última quimera.