terça-feira, 14 de dezembro de 2010

#30 Feliz aniversário, Solange.

A Solange cometeu suicídio na sexta-feira, no dia do próprio aniversário de quarenta e três anos. Dizem que viu o marido entrando na casa da vizinha carregando duas garrafas de vinho, cheio de risos, com ela e uma amiga. O filho pequeno estava dormindo no quarto, nem viu quando ela se trancou dentro da lavanderia pequena, fechou a janela e abriu o registro do gás. Mulher de saúde fraca, quando o filho sentiu o cheiro já era tarde demais. Ela só deixou uma carta em cima da pia:
"Jorge,
Eu não sei por que tu fez isso. Parecia tudo tão bom. Eu não fui uma boa esposa? Nosso sexo não tava bom? Tu destruiu uma família inteira. Não trai o nosso filho do jeito que tu me traiu. Não esquece de alimentar o gato."
O corpo foi velado no dia seguinte. Cerimônia simples, a Solange não gostava de coisa vistosa, dizia o marido.
O Jorge se mudou com o filho, mas enlouqueceu uns dois anos depois. Depressão. Se trancou no hospício. Do filho ninguém mais sabe.
A vizinha se matou na noite do dia do enterro. Morava sozinha, a casa ficou abandonada do mesmo jeito que estava quando ela se enforcou no abacateiro do pátio. Doaram as roupas, venderam alguns móveis, mas a faixa da festa surpresa ainda estava na parede, meio suja. "Feliz Aniversário, Solange". O bolo apodreceu em cima mesa da sala, do lado de duas garrafas de vinho do porto.