terça-feira, 13 de setembro de 2011

#47 Alice

Quantos anos ela tinha eu não sei, mas me disse que no dia seguinte estaria de aniversário.
Acho que tinha uns dezessete.
Não deu tempo para muita conversa, eu desci três estações depois que começamos a conversar, mas admito que, de uma forma fraternal, Alice me cativou. Culpa de seus olhos grandes e castanhos... ou seriam cor de mel? Não lembro bem, só sei que combinavam com seus cabelos escuros e pele clara.
Contou-me de sua mãe, que a estaria esperando na última estação. Disse, também, que tinha um cachorro vira-lata que atendia por Ringo. Não entendi o motivo daquele assunto todo, mas ouvi, mais interessado do que aparentava.
Voltava da casa do pai, disse, que divorciou-se quando ela ainda era criança. Passava os finais de semana com ele desde então, e sempre alugavam algum filme para assistirem.
Suas mãos pequenas brincavam com um molho de chaves, e em um momento as deixou cair.
- Essa já é a terceira cópia que a mãe me dá só nesse ano. - falou, rindo.
Me despedi de Alice, ela me deu seu melhor sorriso e agradeceu pela conversa.
Quando cheguei em meu apartamento, tirei os sapatos e dormi, para acordar no dia seguinte e ver estampado na primeira página do jornal a notícia de um trem que colidira com outro na noite passada. Doze mortes ao total, e mais de vinte feridos.
Pensei em Alice, a menina de mãos inquietas e olhos grandes.
Pensei em sua mãe e no cachorro Ringo.
Onde teriam ido parar suas chaves?
Semanas depois vi Alice no mesmo trem, aparentemente de volta para a casa da mãe. Estava alguns assentos à frente, e não me reconheceu quando entreguei o molho de chaves que deixara cair.
- Obrigada, moço! Eu sempre deixo cair, já é a terceira cópia que a minha mãe me dá.
Não comprei o jornal na manhã seguinte.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

#46 Café Estação

Ele era macchiato
Sorriso au lait, olhar espresso
Confesso que me tornei percolado
Ele lungo, doce e amargo.

Ristretto que trouxe comigo
Na simplicidade de um pingado
O gosto de um marrochino
Daquele café, enamorado.




segunda-feira, 18 de julho de 2011

#45 Bloqueios

De vez em quando acabo com algum bloqueio criativo.
Normalmente eu só percebo o tal bloqueio quando penso "bem, vou escrever sobre tal coisa", e aí eu começo a escrever e nada se desenvolve.
Tomo um café, dois, quinze, vejo um filme, procuro uma boa música, penso em alguém, tomo banho... mas ele continua lá, firme e forte, aquela barreira entre mim e o mundo das idéias, tão forte que consigo sentir o toque frio e áspero da pedra bruta.

Hoje não foi diferente.

Na verdade, foi diferente sim. Hoje eu não tinha idéia sobre o que poderia escrever. Eu travei antes do desenvolvimento da idéia primária, e então percebi que estava feliz.
Se existe uma ligação entre uma coisa e outra? Claro. Afinal, é muito mais fácil chorar de tristeza do que de felicidade.
E eu me resumo a isso, algumas lágrimas aqui e lá, umedecendo a ponta da caneta que segue manchando as páginas de um livro que há tanto tempo eu escrevo e que temo que nunca venha a ter um final de verdade. Se tudo der certo, claro.
Porque finais sempre tornam as coisas definitivas quando, na verdade, elas precisam de autonomia pra se reescreverem e realinharem de todas as formas imagináveis. Possibilidades não são meros caminhos adjuntos, eles são parte da trilha principal.

Eu estou feliz, sim, mas não o bastante pra chorar de felicidade que, como disse anteriormente, é mais difícil. Mas estou feliz e quero continuar assim por um tempo ou dois, e quem sabe até me permita algumas lágrimas.
E o motivo? Bem, acho que posso dizer que durmo tranqüila sabendo que a cada decisão tomada surgem novas possibilidades a serem exploradas. Nada é definitivo. Nada é tão perfeito que não possa ser destruído, e nada é horrendo o bastante pra não possuir certo charme.
Gosto do vento justamente por isso. Tanto pode destruir como cativar, e ainda por cima faz um barulhinho legal quando passa rápido por alguma fresta.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

#44 Versinhos bobinhos de quem não tem nada melhor pra fazer



#Interruptor

Amor no liga e desliga
Quando fica no pisca-pisca
É problema de mau contato.

______________

#Temporal

Chovia.

Deve ter sido a chuva,
eu te chamava,
tu nunca ouvia.

______________


#Doação

Eu dei tudo que eu tinha.
E tu, que disse que não podia,
deu as costas e foi embora.

Dei na cara!
Desaforado.

______________

Deu de baboseira.


Acesse também Saco de Minhocas, meu outro blog criado há pouco tempo.

domingo, 12 de junho de 2011

#42 Reflexões de dia 12/jun

Love is like a cigarette. Starts with fire and desire, ends up in ashes. And then you start it over and over again.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

#41 Toda sorte de espetáculo


Eu achei que era transitório quando nem eu sabia direito o que queria.

E talvez seja, também, quem diria? Transitando por aí, do marasmo à maresia de um cais velho onde nenhum barco atraca mais. Transite também meu sentimento.

Às vezes dá vontade de gritar, mas esse meu medo, que começou num fio tênue, moldando um fino véu de seda ao redor do meu desejo, no início sutil, a terminar espesso e irrompível, calou minha boca.

Despi da voz, mas ainda sinto. E sinto muito.

E tanto sinto que ainda sinto aquela descompassada no peito quando te vejo sorrindo.

Me faz bem, e tanta falta.

E o medo, onde fica? Fica no medo que teus olhos se fechem pra mim.

Os meus estarão aqui pra ti.

Não é insuficiência, só quero me afogar no teu cabelo.


[Dessa vez a foto do post fui eu que tirei, por isso tá uma merda.]

segunda-feira, 2 de maio de 2011

#39 Quem inventou o amor?

- Mas tu sempre te atrasa, hein.
- Perdi o ônibus! Ainda tem tempo até o filme começar?
- Tem sim, uns vinte minutos. Só não dá tempo pro sorvete. Tá vermelha por quê?
- Nada, só um pouco de calor. Compra uma água pra gente?
- Só se tu me der um beijo antes.
- Ah, que saco, começou cedo a encher! Tá bom, eu mesma compro.
- Haha, tá, eu vou ali. Depois te cobro o beijo.
- Não enche o saco.
...
- Tua água, e já comprei o nosso ingresso.
- Obrigada, quanto te devo?
- Com o beijo de antes, acho que já são dois.
- Converte pra reais.
- Não dá, mas aceito um abraço bem apertado.
- Esse 'preço' sim!
...
- É, um abraço de qualidade. Tá vermelha por quê?
- Não tô vermelha!
- Tá sim, e agora parece que vai explodir.
- Ah, cala a boca e não enche.
- Tu ficas uma graça com vergonha, assim.
- Eu nao tô com vergonha!
- Então me dá um beijo.
- Essa brincadeira já perdeu a graça. Vem, o filme vai começar e quero pegar um lugar bom.
- .... tanto faz o lugar, sendo do teu lado tá bom.
- Como tu és bobo!
- Um bobo apaixonado.
- Apaixonado, sei. Por quem?
- Uma garota boba que fica racionando beijo e acha que eu tô brincando. Shh, o filme vai começar!
- ...!


[Dedicado a todos aqueles cujas brincaderas têm um fundo de verdade.
.
Acordei meio 'coisas meigas' hoje, ok.]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

#38 Cumprimentos e adeus.

Como uma explosão, um estalo (BOOM!), tu te foste. Não vi quando a porta bateu, só me dei conta quando estava tudo escuro, frio, vazio. Tu te foste e nem "tchau" deu.

E foi indo, indo, que eu aprendi a caminhar no escuro, tatear em paredes e achar meu caminho, por mais trôpego que seja o meu andar. E nesse breu no qual me embrenhei, bem... nele que fiquei. Tudo é questão de costume. Contigo não pôde ser diferente.

E aí tudo parecia certo. Contra o frio, eu tinha um casaco. Na sala escura, fechei os olhos. Preenchi o vazio com algum barulho contínuo. O tecido for remendado depois da porta ter fechado.

Mas a porta reabriu. E ali estavas tu, e a luz que engoliu o cômodo não vinha de outro sol que senão tu. E a música que tocava não vinha por outra brisa que não fosse a tua. O calor era todo teu.

E eu vi de novo. Enxerguei a cor das paredes que eu tateava, mnhas mãos esfoladas e meus pés sujos. Ajeitei minhas roupas, levantei. O cego que volta a ver.

E ouvi. As músicas, os sons, ouvi a batida do teu coração e a do meu (tão alto e acelerado). Ouvi tua voz. O surdo que recupera a audição.

O frio se foi. Presenciei a nevasca dissolvendo-se num céu primaveril. Tão belo! Despi-me do casaco puído.

Corri. Corri como quem há muito já não anda, apenas tropeça. Corri como se isso fosse impedir que tudo se perdesse. Corri pra ti, em tua direção.

Sorriste.

Me abraçaste. Me beijaste a face, e te despediste.

A porta que se tranca novamente.

Rastejei, deitei e dormi.

Não sonhei, mas chorei baixinho.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

#37 Smooth and bitter

Love is like coffee. Hot as hell itself, smooth in taste... and even getting colder and colder.. it never loses its bitterness.

quinta-feira, 24 de março de 2011

#36 Sincerità

"e se o tempo for te levar eu sigo essa hora e pego carona...
pra te acompanhar."
(Último Romance - Los Hermanos)
-

Sobra sempre um resto de café amargo.
Não o amargo do puro, mas o amargo sozinho.
O amargo triste.
Meio morno, morto, sem graça.
Aquele último gole no fundo da xícara

Me disseram que nenhum sentimento é tão forte a ponto de não adormecer....
.
...mas nenhum sono é tão profundo que não tenha um despertar.


terça-feira, 1 de março de 2011

#35 Direto

Eu te cheiro, te sinto, te olho

Te como com os olhos

Te toco, te puxo, te olho

Te como com os olhos

Te falo, de perto, das horas

Me engulo e te devoro.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

#34 O Leito de Procrusto - Uma breve análise sobre relacionamentos

Procrusto, o esticador, faz parte das histórias de Teseu.

Conhecido por ser um bandido que vivia na serra de Elêusis, Procrusto possuia em sua casa uma cama de ferro de seu exato tamanho. Ele convidava os viajantes que por ali passavam a deitarem-se, e então torturáva-os de forma que coubessem perfeitamente na cama. Os muito altos eram mutilados, e os muito baixos eram esticados até que adquirissem o tamanho desejado por Procrusto. Ninguém sobrevivia, pois ninguém conseguia de fato adequar-se à cama.

Por mais fantástico que seja o mito, não parece um pouco familiar?

O fato é que muitos possuem a Síndrome de Procrusto. Pessoas que desrespeitam a individualidade alheia e tendem a alterar, "enquadrar" outras pessoas de forma a encaixarem em seus padrões pessoais.

A Síndrome de Procrusto afeta, principalmente, relacionamentos. As pessoas não se apaixonam mais umas pelas outras, e sim por aquilo que idealizam que o outro seja. E, conforme o tempo vai passando, elas vão, com muito esmero, lapidando um ao outro de forma a transformar o que julgam ser "pedras brutas" em belas jóias. As jóias que sempre desejaram ter.

Todavia, como no caso de Procrusto, ninguém consegue adequar-se perfeitamente a outro alguém. Esse tipo de comportamento coercivo trouxe fim à era do "felizes para sempre". Os casais já não se esforçam para superar as diferenças um do outro, a individualidade não é mais respeitada e não existe mais o amor um pelo outro. O amor é por aquilo que o parceiro pode vir a se tornar e, como não se torna, é visto como indigno daquele sentimento. Então é descartado, como um bagaço de fruta após ter sido extraído o suco.

O sentimento e o relacionamento foram banalizados. As pessoas perderam seu valor e as peculiaridades, antes tão atrativas e instigantes, agora não passam de mais um mancha no cristal.

Não sei quando o amor tornou-se grande demais para a cama, mas acredito que tenha sido mutilado, e dele sobraram apenas as histórias anteriores aos tempos de Teseu.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

#33 E o que você quer?

Eu quero um dia de cada vez. Doses homeopáticas de vinte e quatro horas, sete vezes por semana. Sem pressa, sem correria. Os dias são únicos.

Eu quero uma música alta que fale sobre todas as pequenas coisas da vida que ninguém dá valor, assim, quem sabe, as pessoas parem de reclamar tanto do que não têm e lembrem-se de comemorar aquilo que conquistaram.

Eu quero ter sempre o que fazer, para quem ligar, o que ler, pra quem escrever. E quero coragem pra sair de casa e procurar pelo que me falta.

Eu quero tanto, mas preciso de tão pouco...



Sentimento estranho. Tem cara de dejàvu, mas um cheiro completamente novo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

#32 Eu gosto dos olhos.

E eu não vou me cansar do clássico clichê dos olhos belos.

A inspiração dos poetas, a piscina dos amantes, o espelho da alma. Em todas as suas formas, cores, contrastes. Eu gosto é dos olhos.

Claro que sorrisos me conquistam, também. Mas os olhos também sorriem. E é isso que me encanta tanto. A emoção que os olhos te passam.

A dor, o medo, a sinceridade, a calma, a luxúria, o desejo, a alegria. Tudo o que palavras podem disfarçar, mas acabam desmentidas por um soslaio ou brilho exagerado.

E não escolho meus olhos favoritos por cores. Das cores, gosto de todas. Não escolho também pelo formato ou tamanho - isso pouco me interessa.

Mas meus olhos favoritos são aqueles cor de café, nem exageradamente grandes ou estranhamente pequenos. Aqueles! São profundos, como o mar, e parece que olham pra dentro da alma. Mas não me assustam: me alegram. São olhos sorridentes, olhos que confortam, que me aquecem. Ah, esses olhos... eu gosto é desses olhos!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

#31 O Flautista de Hamelin



E chega bela, como uma canção, toda a ilusão que nos há de desesperar.

Nos carrega nos braços, embala e aconchega, fantasia nossos desejos mais doces. Tanto nos engana com essa idéia de perfeição que baixamos a guarda, nos jogamos de cabeça e coração.

E a música vai sumindo gradativamente, tão sutilmente que a mudança nem é peceptível.

E quando percebemos? É quando estamos caídos sozinhos, de costas no chão frio de um quarto escuro, úmido e vazio. E aí percebemos que tudo o que carregávamos foi levado pra longe: todas as emoções, vontades, medos, desesperos e sonhos. Tudo se foi junto com a melodia precita e o calor que nos abraçava.

E o que resta disso? Nem carinho, nem memória, nem dor. Não sobra nada. Nada além de uma casca vazia e condenada. Sem sonhos. Sem lembranças. Sem temor. Resta uma casca fria e ruínas.

E foi isso que se sucedeu há muitos, muitos anos, na deserta e cinzenta cidade de Hamelin, onde, por mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma esperança.