segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

#34 O Leito de Procrusto - Uma breve análise sobre relacionamentos

Procrusto, o esticador, faz parte das histórias de Teseu.

Conhecido por ser um bandido que vivia na serra de Elêusis, Procrusto possuia em sua casa uma cama de ferro de seu exato tamanho. Ele convidava os viajantes que por ali passavam a deitarem-se, e então torturáva-os de forma que coubessem perfeitamente na cama. Os muito altos eram mutilados, e os muito baixos eram esticados até que adquirissem o tamanho desejado por Procrusto. Ninguém sobrevivia, pois ninguém conseguia de fato adequar-se à cama.

Por mais fantástico que seja o mito, não parece um pouco familiar?

O fato é que muitos possuem a Síndrome de Procrusto. Pessoas que desrespeitam a individualidade alheia e tendem a alterar, "enquadrar" outras pessoas de forma a encaixarem em seus padrões pessoais.

A Síndrome de Procrusto afeta, principalmente, relacionamentos. As pessoas não se apaixonam mais umas pelas outras, e sim por aquilo que idealizam que o outro seja. E, conforme o tempo vai passando, elas vão, com muito esmero, lapidando um ao outro de forma a transformar o que julgam ser "pedras brutas" em belas jóias. As jóias que sempre desejaram ter.

Todavia, como no caso de Procrusto, ninguém consegue adequar-se perfeitamente a outro alguém. Esse tipo de comportamento coercivo trouxe fim à era do "felizes para sempre". Os casais já não se esforçam para superar as diferenças um do outro, a individualidade não é mais respeitada e não existe mais o amor um pelo outro. O amor é por aquilo que o parceiro pode vir a se tornar e, como não se torna, é visto como indigno daquele sentimento. Então é descartado, como um bagaço de fruta após ter sido extraído o suco.

O sentimento e o relacionamento foram banalizados. As pessoas perderam seu valor e as peculiaridades, antes tão atrativas e instigantes, agora não passam de mais um mancha no cristal.

Não sei quando o amor tornou-se grande demais para a cama, mas acredito que tenha sido mutilado, e dele sobraram apenas as histórias anteriores aos tempos de Teseu.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

#33 E o que você quer?

Eu quero um dia de cada vez. Doses homeopáticas de vinte e quatro horas, sete vezes por semana. Sem pressa, sem correria. Os dias são únicos.

Eu quero uma música alta que fale sobre todas as pequenas coisas da vida que ninguém dá valor, assim, quem sabe, as pessoas parem de reclamar tanto do que não têm e lembrem-se de comemorar aquilo que conquistaram.

Eu quero ter sempre o que fazer, para quem ligar, o que ler, pra quem escrever. E quero coragem pra sair de casa e procurar pelo que me falta.

Eu quero tanto, mas preciso de tão pouco...



Sentimento estranho. Tem cara de dejàvu, mas um cheiro completamente novo.