sexta-feira, 19 de outubro de 2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

#51 Microcontos

[.]


As mãos dadas como amantes que eram. Um toque no rosto. Um abraço forte.
- Te vejo amanhã?
- Como toda noite.
Se afastaram.
Ele sorriu. Ela acordou.


[..]

Amavam-se cegamente. 
Ela não o enxergava com os olhos.
Ele não a via com o coração.


[...]



Escritor e poeta, professor e homem culto, mas lhe faltavam palavras quando ela sorria.

[....]

- Deseja alguma coisa?
- Um espresso duplo. Traz um cinzeiro?
- Sim, senhor. Açúcar ou adoçante?
Pediu amargo. Combina com a solidão.

[.....]

Já bebi demais. Continuar escrevendo não seria saudável. Pra nós.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

#49 Freeway

            O destino é como uma roda, já dizia um dos grandes. Claro, há quem não acredite em destino, carma, sabe? E não julgo, final, eu mesma nunca fui muto crente nessas coisas.
         Na verdade, nunca fui muito crente em nada. Não tenho religião, também. Fé é uma filosofia que não precisa de rótulos e restrições (ou de um livro de tradução duvidosa escrito há mais de dois mil anos atrás).
            Mas não é esse meu foco, hoje. Hoje quero falar de destino.
           Estou há um mês do meu aniversário de dez anos, por mais que em minha carteira de identidade conste que estou beirando os trinta e dois. Mas esses trinta e algo não me interessam. O que celebro são os dez anos. "Aniversário de renascimento", como gosto de pensar.
            Para quem não está a par, pareço louca. 
       O fato é que não há nada de interessante no nascimento. Não fazemos nada para nascer. Só nascemos. Fim. É sem valor, sem glória, sem esforço. Sem consciência. Para que comemorar uma vitória sem esforço? Nem bem uma vitória... um ato primeiro, o ato primordial. Pra quê? Mas renascimento é diferente. Para renascer é preciso morrer e, o mais importante, é preciso querer viver de novo. E não falo aqui da morte em uma mesa de cirurgia. Essa é inconsciente. Falo da morte por dentro, aquela que arrasa, que despedaça, que desmata e queima o solo para garantir que nada há de nascer ali de novo. Uma morte lenta e cruel. Uma morte consciente. Você sabe e sente que está morrendo e não há nada que se possa fazer até que o vazio tome o lugar de tudo: sangue, ossos, entranhas. E quando tudo some (até mesmo a dor), fica o vazio. Um vazio consciente, que sabe-se estar ali inundando tudo com todo aquele nada. E aí há de surgir a vontade. Um fio de esperança. E ela não surge de dentro nem de lugar nenhum, porque não há de onde surgir. Mas ela vem. 
            E vira desespero. E quanto maior a esperança, maior o desespero. E se o desespero for grande o bastante, vem o renascimento. E ele renasce tudo dentro daquele vazio. E demora. É como se fosse uma gestação de si mesmo que, quando completa, culmina num parto tão horrendo e doloroso que, no final, a alegria final não é pela nova criatura nascida, e sim pelo fim da dor.
             O alívio.
          O alívio que senti dez anos atrás quando dei à luz um novo eu. O eu que gestei com todo o desespero cuidadosamente acumulado. O desespero consciente. Esse é o aniversário que celebro.
         Mas digo, e preciso deixar claro, que minha morte não foi morte morrida. Foi morte matada. Morta pelo fio da navalha de quem queria muito mais do que eu podia oferecer. Um assalto fracassado, a perfuração raivosa. Uma. Duas. Sete. Quinze vezes. O aço gelado marcando um caminho frio entre minhas vísceras. Ele foi embora e eu fiquei. Isso foi há mais de dez anos. E ele, depois que se foi, nunca mais vi. Que o diabo o tenha.
          Eu me mudei, nos últimos anos. Terminei o mestrado que eu tinha abandonado. Fiz meu nome e minha carreira. Nada grande, mas digno de orgulho. A vida seguiu, eu mudei e me mudei. 
          E eu entrei no táxi a caminho do jantar da empresa e, como um pedaço do inferno personificado, ali estava ele.
         E ele abriu a porta e eu entrei. E toda a esperança começou a se transformar em desespero. E eu não disse pra onde eu ia, mas ele dirigiu, porque sabia onde era. Assim, só sabia. Sabia de tudo. Do emprego, do estudo, da fatura do cartão de crédito, do flerte no pub. Tudo. Mas não disse que sabia. Aí quem sabia era eu.
              E entrou na freeway sem dizer nenhuma palavra. Nem ele, nem eu. Nem o carro fazia barulho. Nada. O rádio ligado apenas chiava. Chiava mudo. Não havia barulho.
              E foi numa rua de chão batido que ele parou o carro. A porta destravou e ele desceu. Não precisei de muito convite. Desci.
Ele parou na minha frente com aquele olhar vazio, tão vazio quanto o nada que inundava tudo em mim há mais de dez anos atrás.


- Eu te odeio.

  Saiu meio cuspido.
  Um barulho metálico.  
  Fechei os olhos pra não ver a saliva que voava em meu rosto. 
  O giro de um tambor de revólver.
  Com os olhos semicerrados vi uma .38 prateada na mão direita.
  O barulho da trava.

  A mão levantando.
  Fechei os olhos com força.
  O barulho do tiro.
  O líquido quente respingando no meu rosto.
  O som do corpo inerte caindo mole no chão.
  Abri os olhos. Os dele estavam vidrados.
  Morto. Suicida.
  Meu assassino se matou com um tiro na têmpora.
  Fui até o carro, peguei o celular dele e liguei para a polícia. Não me identifiquei.


  Depois, chamei um táxi. 
  Meu chefe não tolerava atrasos, mesmo fora da empresa.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

#48 Tête-à-tête

- Desde que me conheço por gente, sempre fui atraída pelo mundo das artes.

Acho que começou quando eu tinha 5 anos e minha mãe me matriculou numa academia de dança para estudar balé.

Pensando sobre isso, hoje em dia, eu não entendo muito bem o que fez minha mãe tomar essa decisão. Ela mesma fora criada no campo, nenhum contato com artes e dança, e o que poderia ser muito comum na juventude de muitas mulheres da mesma época dela, a ela era um universo totalmente alheio, desconhecido. Talvez tenha sido esse desconhecimento do comum e regular que tenha feito ela acreditar que seria bom pra mim seguir o mesmo caminho que todas as outras meninas trilhavam. Sinceramente? Acho que foi bom. Foi bom sim. Mães sempre sabem o que é bom pro rebento.

Claro que eu não dei certo no mundo da dança. Era uma criancinha gorda e descoordenada demais para isso, e a instrutora não era das mais pacientes. Lembro, entretanto, que eu gostava bastante, e ia o caminho todo da minha casa treinando pulinhos e piruetas. Ainda hoje, quando olho para o prédio onde costumava existir a academia (que por mais que eu me esforce não consigo lembrar o nome, e atualmente é sede de um restaurante), dá uma saudade grande daquele tempo, e me pego lembrando da minha própria imagem de criança refletida nas enormes paredes de espelho (que nem deviam ser tão grandes assim, mas aos meus olhos infantis eram como os muros de um palácio de cristal). E, tão subitamente como começou, minha ilustre carreira de bailarina chegou ao seu amargo fim.

Depois disso, acho que veio a música. Eu tinha uns 12 anos, na época. Talvez 11. Estava olhando um encarte de loja, e vi um violão a venda. Era um preço bem baixo, e eu ganhava uma mesada de 15 reais, na época. "Por que não?", pensei. Vendi as fitas de um videogame velho que tinha quebrado, juntei minha mesada e comprei o violão. Meu pai gostou tanto da idéia que até pagou umas aulas, mas não adianta, eu não era aquilo. Eu não fazia parte daquele mundo de cordas e ritmos. Gostava mais quando o professor me deixava tocar o teclado (e, verdade seja dita, os últimos dois meses que fiz as aulas de música eu nem levava mais o violão). Tentei algo no ramo do canto, também, mas é claro que não colhi fruto algum. E, tão subitamente como começou, minha ilustre carreira de rockstar chegou ao seu amargo fim.

Não lembro quando comecei a realmente gostar de escrever. Começou como obrigação escolar, mas sabe, eu tomei gosto pela coisa. Na verdade, tomei gosto pela liberdade, a flexibilidade, o leque infinito de possibilidades que meia dúzia de palavras, talvez escolhidas a esmo, pudessem ter. Foi um universo novo que me cativou completamente, fosse lá a idade que eu tivesse.

Mas não vejo meus rabiscos como arte. Não, seria presunçoso demais da minha parte chamar um apanhado de palavras "arte". Seria tão absurdo quanto colocar uma enciclopédia na estante de poesias de uma biblioteca.

Admito, já tive essa pretensão toda (os sonhos foram feitos para serem sonhados, afinal de contas). Atualmente vejo as coisas por outras lentes. Vejo que o que escrevo não é a arte, e sim a resenha. É o reflexo de algo maior. O reflexo da forma que eu vejo.

Afinal, a poesia não é a descrição detalhada de como os teus olhos castanhos lembram a cor (e até o aroma) do café, ou como o toque das tuas mãos é tão singular que consegue ser frio e quente ao mesmo tempo.

Poesia não são as linhas que retratam o momento em que meu coração falha uma batida toda a vez que te vejo sorrindo, nem como me sinto finalmente em casa quando me perco nos teus abraços, e nem como me pego sorrindo sozinha ao sentir teu cheiro preso em mim. Não... essas palavras, essas descrições, não são poesia. Não são arte.

Parei de procurar pela arte quando te encontrei.
Foi uma cena meio engraçada porque, de tanto que eu procurei, parece que ela que me achou.

- E a poesia?

- A dos outros eu não sei, mas a minha tá em ti.