terça-feira, 10 de janeiro de 2012

#48 Tête-à-tête

- Desde que me conheço por gente, sempre fui atraída pelo mundo das artes.

Acho que começou quando eu tinha 5 anos e minha mãe me matriculou numa academia de dança para estudar balé.

Pensando sobre isso, hoje em dia, eu não entendo muito bem o que fez minha mãe tomar essa decisão. Ela mesma fora criada no campo, nenhum contato com artes e dança, e o que poderia ser muito comum na juventude de muitas mulheres da mesma época dela, a ela era um universo totalmente alheio, desconhecido. Talvez tenha sido esse desconhecimento do comum e regular que tenha feito ela acreditar que seria bom pra mim seguir o mesmo caminho que todas as outras meninas trilhavam. Sinceramente? Acho que foi bom. Foi bom sim. Mães sempre sabem o que é bom pro rebento.

Claro que eu não dei certo no mundo da dança. Era uma criancinha gorda e descoordenada demais para isso, e a instrutora não era das mais pacientes. Lembro, entretanto, que eu gostava bastante, e ia o caminho todo da minha casa treinando pulinhos e piruetas. Ainda hoje, quando olho para o prédio onde costumava existir a academia (que por mais que eu me esforce não consigo lembrar o nome, e atualmente é sede de um restaurante), dá uma saudade grande daquele tempo, e me pego lembrando da minha própria imagem de criança refletida nas enormes paredes de espelho (que nem deviam ser tão grandes assim, mas aos meus olhos infantis eram como os muros de um palácio de cristal). E, tão subitamente como começou, minha ilustre carreira de bailarina chegou ao seu amargo fim.

Depois disso, acho que veio a música. Eu tinha uns 12 anos, na época. Talvez 11. Estava olhando um encarte de loja, e vi um violão a venda. Era um preço bem baixo, e eu ganhava uma mesada de 15 reais, na época. "Por que não?", pensei. Vendi as fitas de um videogame velho que tinha quebrado, juntei minha mesada e comprei o violão. Meu pai gostou tanto da idéia que até pagou umas aulas, mas não adianta, eu não era aquilo. Eu não fazia parte daquele mundo de cordas e ritmos. Gostava mais quando o professor me deixava tocar o teclado (e, verdade seja dita, os últimos dois meses que fiz as aulas de música eu nem levava mais o violão). Tentei algo no ramo do canto, também, mas é claro que não colhi fruto algum. E, tão subitamente como começou, minha ilustre carreira de rockstar chegou ao seu amargo fim.

Não lembro quando comecei a realmente gostar de escrever. Começou como obrigação escolar, mas sabe, eu tomei gosto pela coisa. Na verdade, tomei gosto pela liberdade, a flexibilidade, o leque infinito de possibilidades que meia dúzia de palavras, talvez escolhidas a esmo, pudessem ter. Foi um universo novo que me cativou completamente, fosse lá a idade que eu tivesse.

Mas não vejo meus rabiscos como arte. Não, seria presunçoso demais da minha parte chamar um apanhado de palavras "arte". Seria tão absurdo quanto colocar uma enciclopédia na estante de poesias de uma biblioteca.

Admito, já tive essa pretensão toda (os sonhos foram feitos para serem sonhados, afinal de contas). Atualmente vejo as coisas por outras lentes. Vejo que o que escrevo não é a arte, e sim a resenha. É o reflexo de algo maior. O reflexo da forma que eu vejo.

Afinal, a poesia não é a descrição detalhada de como os teus olhos castanhos lembram a cor (e até o aroma) do café, ou como o toque das tuas mãos é tão singular que consegue ser frio e quente ao mesmo tempo.

Poesia não são as linhas que retratam o momento em que meu coração falha uma batida toda a vez que te vejo sorrindo, nem como me sinto finalmente em casa quando me perco nos teus abraços, e nem como me pego sorrindo sozinha ao sentir teu cheiro preso em mim. Não... essas palavras, essas descrições, não são poesia. Não são arte.

Parei de procurar pela arte quando te encontrei.
Foi uma cena meio engraçada porque, de tanto que eu procurei, parece que ela que me achou.

- E a poesia?

- A dos outros eu não sei, mas a minha tá em ti.