quinta-feira, 3 de maio de 2012

#49 Freeway

            O destino é como uma roda, já dizia um dos grandes. Claro, há quem não acredite em destino, carma, sabe? E não julgo, final, eu mesma nunca fui muto crente nessas coisas.
         Na verdade, nunca fui muito crente em nada. Não tenho religião, também. Fé é uma filosofia que não precisa de rótulos e restrições (ou de um livro de tradução duvidosa escrito há mais de dois mil anos atrás).
            Mas não é esse meu foco, hoje. Hoje quero falar de destino.
           Estou há um mês do meu aniversário de dez anos, por mais que em minha carteira de identidade conste que estou beirando os trinta e dois. Mas esses trinta e algo não me interessam. O que celebro são os dez anos. "Aniversário de renascimento", como gosto de pensar.
            Para quem não está a par, pareço louca. 
       O fato é que não há nada de interessante no nascimento. Não fazemos nada para nascer. Só nascemos. Fim. É sem valor, sem glória, sem esforço. Sem consciência. Para que comemorar uma vitória sem esforço? Nem bem uma vitória... um ato primeiro, o ato primordial. Pra quê? Mas renascimento é diferente. Para renascer é preciso morrer e, o mais importante, é preciso querer viver de novo. E não falo aqui da morte em uma mesa de cirurgia. Essa é inconsciente. Falo da morte por dentro, aquela que arrasa, que despedaça, que desmata e queima o solo para garantir que nada há de nascer ali de novo. Uma morte lenta e cruel. Uma morte consciente. Você sabe e sente que está morrendo e não há nada que se possa fazer até que o vazio tome o lugar de tudo: sangue, ossos, entranhas. E quando tudo some (até mesmo a dor), fica o vazio. Um vazio consciente, que sabe-se estar ali inundando tudo com todo aquele nada. E aí há de surgir a vontade. Um fio de esperança. E ela não surge de dentro nem de lugar nenhum, porque não há de onde surgir. Mas ela vem. 
            E vira desespero. E quanto maior a esperança, maior o desespero. E se o desespero for grande o bastante, vem o renascimento. E ele renasce tudo dentro daquele vazio. E demora. É como se fosse uma gestação de si mesmo que, quando completa, culmina num parto tão horrendo e doloroso que, no final, a alegria final não é pela nova criatura nascida, e sim pelo fim da dor.
             O alívio.
          O alívio que senti dez anos atrás quando dei à luz um novo eu. O eu que gestei com todo o desespero cuidadosamente acumulado. O desespero consciente. Esse é o aniversário que celebro.
         Mas digo, e preciso deixar claro, que minha morte não foi morte morrida. Foi morte matada. Morta pelo fio da navalha de quem queria muito mais do que eu podia oferecer. Um assalto fracassado, a perfuração raivosa. Uma. Duas. Sete. Quinze vezes. O aço gelado marcando um caminho frio entre minhas vísceras. Ele foi embora e eu fiquei. Isso foi há mais de dez anos. E ele, depois que se foi, nunca mais vi. Que o diabo o tenha.
          Eu me mudei, nos últimos anos. Terminei o mestrado que eu tinha abandonado. Fiz meu nome e minha carreira. Nada grande, mas digno de orgulho. A vida seguiu, eu mudei e me mudei. 
          E eu entrei no táxi a caminho do jantar da empresa e, como um pedaço do inferno personificado, ali estava ele.
         E ele abriu a porta e eu entrei. E toda a esperança começou a se transformar em desespero. E eu não disse pra onde eu ia, mas ele dirigiu, porque sabia onde era. Assim, só sabia. Sabia de tudo. Do emprego, do estudo, da fatura do cartão de crédito, do flerte no pub. Tudo. Mas não disse que sabia. Aí quem sabia era eu.
              E entrou na freeway sem dizer nenhuma palavra. Nem ele, nem eu. Nem o carro fazia barulho. Nada. O rádio ligado apenas chiava. Chiava mudo. Não havia barulho.
              E foi numa rua de chão batido que ele parou o carro. A porta destravou e ele desceu. Não precisei de muito convite. Desci.
Ele parou na minha frente com aquele olhar vazio, tão vazio quanto o nada que inundava tudo em mim há mais de dez anos atrás.


- Eu te odeio.

  Saiu meio cuspido.
  Um barulho metálico.  
  Fechei os olhos pra não ver a saliva que voava em meu rosto. 
  O giro de um tambor de revólver.
  Com os olhos semicerrados vi uma .38 prateada na mão direita.
  O barulho da trava.

  A mão levantando.
  Fechei os olhos com força.
  O barulho do tiro.
  O líquido quente respingando no meu rosto.
  O som do corpo inerte caindo mole no chão.
  Abri os olhos. Os dele estavam vidrados.
  Morto. Suicida.
  Meu assassino se matou com um tiro na têmpora.
  Fui até o carro, peguei o celular dele e liguei para a polícia. Não me identifiquei.


  Depois, chamei um táxi. 
  Meu chefe não tolerava atrasos, mesmo fora da empresa.